Le Texte Des Autres : “As duas amigas”

21 Jun

 

Camila abriu sua coleção de cartas. Dentro da caixa de madeira, os velhos papéis se misturavam. Algumas, escritas por ex-namorados, a faziam rir. Outras, chorar. Mas as que mais a comovia eram, sem dúvida, as de Ana Paula. Que saudade de Ana Paula. As brincadeiras, os risos, as conversas. O endereço ainda constava no remetente. Por que não procurá-la? O que perderia? Não sabia. Mas pelo sim, pelo não, não procurava.

Tinham se conhecido na infância. Mais precisamente, no maternal. Camila, sempre de maria-chiquinha cuidadosamente arranjada pela mãe. Ana Paula, sempre puxando o cabelo de Camila e desarrumado sua maria-chiquinha. A professora teve que interferir. O castigo: as duas abraçadas por meia hora, fechadas na sala de aula. O resultado: amigas para sempre. Ou um pouco menos do que sempre.

Não se desgrudavam. Na infância, fugiam juntas dos meninos e atiravam-lhes bolas de papel. Na adolescência, corriam juntas atrás dos meninos e escreviam-lhes juras de amor no papel. Mas sempre estavam juntas. Quando Ana Paula saiu correndo do banheiro da escola, assustada pelo sangue, foi Camila quem trouxe os band-aids, o gelo e a pomada. Depois que a mãe de Ana Paula riu e disse o que era, foram juntas comprar o absorvente. O primeiro beijo foi um acontecimento. Camila, a mais bonita, foi a primeira. Foi numa daquelas brincadeiras de cai no poço. Estava tudo combinado para ser com o mais bonito da classe, mas Ana Paula errou e Camila acabou tendo que dar o beijo em Pedrinho, que usava aparelho nos dentes, óculos de fundo de garrafa e queria ter saído com a Ana Maria, da quinta série A.

E agora, Camila estava lá, com as cartas de Ana Paula nas mãos. Todas com o endereço carinhosamente escrito no remetente. Umas tinham piadas. Outras, confissões. Algumas traziam poesias. Mas a maioria, mesmo, eram envelopes vazios, porque a filhinha de Camila um dia estava precisando de papel para escrever uma carta para o pólo norte e achou mais prático enviar uma carta pronta. Afinal, não sabia escrever.

A primeira viagem das duas sem os pais foi uma festa. Literalmente. Pegaram o ônibus errado e foram parar em uma pequena cidade que promovia a XVII Festa da Fruta do Conde. A sorte é que à noite apareceram uns rapazes da faculdade que estavam na cidade vizinha, na XIX Festa da Goiabada da Roça. Um deles estava de paquera com Ana Paula há tempos e a primeira vez dela aconteceu lá mesmo. Nada mais romântico: a primeira vez que ela experimentava o sexo, a primeira vez que ela experimentava fruta do conde.
Mas aí veio a briga. Camila era apaixonada pelo primo do vizinho do amigo do conhecido do irmão de uma amiga em comum das duas, que ficou de apresentar o rapaz a ela. Nesse meio tempo, Ana Paula confessou a ela que o primo do vizinho do amigo do conhecido do irmão da mesma amiga não saía de sua cabeça. As duas tiveram a maior discussão e acabaram a amizade de vez. Nunca mais se falaram. Nem uma com a outra, nem com o primo.

Até que Camila começou a sentir mais saudade de Ana Paula do que raiva da briga. Mesmo depois de seu marido a ter trocado por outra dois anos e meio mais nova, tendo uma filhinha que sonhava em ir ao Pólo Norte para criar e pensando que, talvez, se estivesse ficado com o tal primo, tudo poderia ser diferente, a saudade da amiga crescia a cada momento. Estava resolvido: iria vê-la, sim. Tinha as cartas. Tinha o endereço. Tinha vontade de saber se Ana Paula ainda tinha o telefone do primo. Por que não?

Com uma das cartas na mão, pegou seu carro e foi. Fazia tempo que não ia àquele bairro afastado. Como aquelas ruas lhe traziam lembranças! Parou o carro. Ficou admirando a paisagem. A casa continuava igualzinha. As grades, o portão, a antena parabólica – ah, não, a antena parabólica era nova. Bateu na porta com o coração na mão. Uma velhinha a atendeu.

– Boa tarde. A senhora é a mãe de Ana Paula?

– Sou, sim. O que deseja?

Com o coração no pé, porque já tinha caído da mão, Camila explicou.

– Sou uma velha amiga dela. Desculpe, mas estou muito ansiosa para ver sua filha. A senhora pode chamá-la, por favor?

– Um minuto.

E então Camila esperou três minutos, que não pareceram uma eternidade, mas três minutos mesmo, já que havia um enorme relógio de parede na sua frente. Foi quando Ana Paula chegou. Tinha mudado bastante. Estava bem magra, com os cabelos loiros e lisos e os seios extremamente empinados. Mas, para Camila, ela sempre seria aquela gordinha, com os cabelos enrolados e escuros e os peitos caídos já aos 18 anos. O coração de Camila parecia explodir.

– Aninha? É você?

– Sou eu, sim. Quem é você?

– Não se lembra de mim, Aninha? Camila, do colégio Sagrado

Coração de Maria. Da faculdade de nutricionismo sociológico aplicado à comunicação! Da viagem à cidade da fruta do conde, lembra?

– Olha, eu não sei quem é você, mas eu passei a minha infância e adolescência estudando na Guiana Francesa. Você é de lá?

– Mas…você não é a Ana Paula?

– Bom, desculpa falar, mas já lhe ocorreu que essa menina que você está procurando pode ser outra Ana Paula?

– Nossa! E pode ser outro primo. Meus Deus! Afinal de contas, a maioria das pessoas têm mais de um primo, não têm?

– O quê?

Camila foi embora sem dizer mais nada. Estava pasma. Outra Ana Paula, outro primo. De lembrança concreta, agora, só as cartas. Afinal, vai que a fruta do conde era jaca e ela não sabia.

Sabe quem escreveu esse texto ?  

   Liliane Prata, nascida em 20 de Outubro de 1980 em Minas Gerais, é formada em jornalismo pela UFMG, colunista da revista Capricho desde 2003. Já lançou livros como “Diário de Débora”, que foi lançado em 2003 e já está em sua nona edição, também lançou “Uma Bebida e Um Amor Sem Gelo, Por Favor” e “Continho do Amor”.

Quer saber mais sobre ela e ler mais textos, encontre-a no site :

www.lilianeprata.com.br

 

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